quarta-feira, 12 de novembro de 2014





Skies are crying
I am watching
Catching teardrops in my hands
Only silence, has its ending
Like we never had a chance
Do you have to make me feel like
There's nothing left of me?

You can take everything I have
You can break everything I am
Like I'm made of glass
Like I'm made of paper
Go on and try to tear me down
I will be rising from the ground
Like a skyscraper
Like a skyscraper

As the smoke clears
I awaken and untangle you from me
Would it make you feel better
To watch me while I bleed
All my windows, still are broken
But I'm standing on my feet

You can take everything I have
You can break everything I am
Like I'm made of glass
Like I'm made of paper
Go on and try to tear me down
I will be rising from the ground
Like a skyscraper
Like a skyscraper

Go run, run, run
I'm gonna stay right here
Watch you disappear, yeah
Go run run run
Yeah it's a long way down
But I'm closer to the clouds up here

You can take everything I have
You can break everything I am
Like I'm made of glass
Like I'm made of paper
Go on and try to tear me down
I will be rising from the ground
Like a skyscraper
Like a skyscraper
Like a skyscraper
Like a skyscraper
Like a skyscraper

Pelo amor de uma filha


Você sabe o que é ser filha de um alcoólatra, você sabe?
Você sabe o que é viver diariamente assustada com o temor de sentir o cheiro de bebida ao se aproximar do seu pai e dizer, não, não foi dessa vez. Hoje ele veio pra casa sóbrio?
Você sabe o que é escutar da sua mãe, seu pai bebeu e a partir daí saber que o inferno voltou ao seu lar?
Você sabe o que é ser apenas uma garotinha, ter apenas não mais do que cinco, seis, sete, oito anos e sua mãe mandar você ir chamar seu pai na esquina, no bar, porque a você ele atende?
Você sabe o que é fazer mais de 20 anos de terapia e ainda assim continuar sentindo medo? Continuar se achando uma pessoa horrível? Continuar achando que você errou a sua vida inteira? Continuar sentindo vergonha de si mesma? Continuar sentindo pena de si mesma?
Você sabe?

Recife, 12 de novembro de 2014. À 1:15 hs da madruga. Depois de ver na TV especial sobre Demi Lovato, cantora, menina de 22 anos, filha de alcoólatra , usuária de drogas e com transtorno bipolar e ouvir  a música que fez para o seu pai For the love of a daughter.

Ps. Hoje, 25 de março de 2015, choro quando releio o desabafo acima e escuto a música e lembro da minha história e da história da Demi Lovato. Amei e ainda amo o meu pai com um amor incondicional e tivemos a felicidade de conseguir com que parasse de beber através dos Alcoólatras Anônimos e isso pouco antes do meu filho e seu primeiro neto nascer. Ele era um homem menino, ele era um ser maravilhoso e todos o amavam muito, família e amigos. Ele foi uma das grandes vítimas dessa doença que precisa ser tratada e muito compreendida ainda.
Este post vai em homenagem e solidariedade a todas as famílias afetadas pelo alcoolismo que, sim, é uma doença das mais tristes e talvez a que mais destrói identidades.



Four years old
With my back to the door
All I could hear
Was the family war

Your selfish hands
Always expecting more
Am I your child
Or just a charity award

You have a hollowed out heart
But it's heavy in your chest
I've tried so hard to fight it but it's hopeless
Hopeless (hopeless)
You're hopeless

Oh father
Please, father
I'd love to leave you alone
But I can't let you go
Oh father
Please, father
Put the bottle down
For the love of a daughter

It's been five years
Since we've spoken last
And you can't take back
What we never had
Oh I can be manipulated
Only so many times
Before even "I love you"
Starts to feel like a lie

You have a hollowed out heart
But it's heavy in your chest
I've tried so hard to fight it but it's hopeless
Hopeless (hopeless)
You're hopeless

Oh father
Please, father
I'd love to leave you alone
But I can't let you go
Oh father
Please, father
Put the bottle down
For the love of a daughter

Don't you remember
I'm your baby girl?
How could you push me
Out of your world?
Lied to your flesh and your blood!
Put your hands on the ones
That you swore you loved!

Don't you remember
I'm your baby girl?
How could you throw me
Right out of your world
So young when the pain had begun
Now forever afraid of being loved

Oh father
Please, father
I'd love to leave you alone
But I can't let you go
Oh father
Please, father

Oh father
Please, father
Put the bottle down
For the love of a daughter
For the love of a daughter

Pelo Amor De Uma Filha
Quatro anos de idade
Com minhas costas na porta
Tudo o que eu conseguia ouvir
Era a guerra da família

Suas mãos egoístas
Sempre esperando mais
Sou sua filha
Ou apenas um prêmio de caridade?

Você tem um coração oco
Mas é pesado em seu peito
Eu tento tanto lutar mas não tem jeito
Não tem jeito (não tem jeito)
Você não tem jeito

Oh pai
Por favor, pai
Eu adoraria te deixar sozinho
Mas não consigo te deixar partir
Oh pai
Por favor, pai
Coloque a garrafa de lado
Pelo amor de uma filha

Já faz cinco anos
Desde que nos falamos pela última vez
Você não consegue retirar
O que nunca tivemos
Oh posso ser manipulada
Apenas várias vezes
Antes mesmo de um "eu te amo"
Começou a soar como uma mentira

Você tem um coração oco
Mas é pesado em seu peito
Eu tento tanto lutar mas não tem jeito
Não tem jeito (não tem jeito)
Você não tem jeito

Oh pai
Por favor, pai
Eu adoraria te deixar sozinho
Mas não consigo te deixar partir
Oh pai
Por favor, pai
Coloque a garrafa de lado
Pelo amor de uma filha

Você não se lembra?
Eu sou sua garotinha
Como pôde me empurrar
Para fora do seu mundo?
A luz da sua lanterna e do seu sangue
Colocou sua mão naqueles
Que você jurou amar

Você não se lembra?
Eu sou sua garotinha
Como pôde me jogar
Para fora do seu mundo?
Tão jovem quando a dor começou
Agora para sempre com medo de ser amada

Oh pai
Por favor, pai
Eu adoraria te deixar sozinho
Mas não consigo te deixar partir
Oh pai
Por favor, pai

Oh pai
Por favor, pai
Coloque a garrafa de lado
Pelo amor de uma filha
Pelo amor de uma filha



sábado, 18 de outubro de 2014

O jogo não termina

Antonio Paulo Rezende

"Guarde o tempo em algum lugar pouco conhecido.
Ele foge, inquieta-se, mas repousa em memórias antigas.
Não adianta esquecer o corpo, anular os calendários,
quando tudo flui evitando o cansaço do olhar fixo.
Há quem testemunhe brincadeiras distraindo as agonias
e adiando qualquer imagem doentia de culpa e pecado.
Cada história traz o sinal da eternidade confusa, mas sedutora,
dilui a tensão que teima em refazer os conflitos sem defini-los.
A possibilidade se esvazia quando a mesmice se torna soberana
e acreditamos que o fim do mundo tem data marcada."

quarta-feira, 27 de agosto de 2014


Texto de Fabíola Simões no blog A soma de todos os afetos


Faço o tipo distraída. Atenta ao todo e desfocada de tudo. Perdida em pensamentos, divagações, viagens interiores. Do tipo que esquece a bolsa quando encontra as chaves. Atrasada, sempre correndo, sempre esquecendo. Distraída do tempo, de rostos e nomes. 
Mas nunca tinha ocorrido esquecer-me de mim. Amnésia mesmo. Olhar para o espelho e perguntar quem é aquela que sorri sem jeito e diz "muito prazer". Acordar e não saber que vida é aquela, ter a sensação de estar vivendo a vida de outra pessoa, não a minha.
Aconteceu comigo. Parece loucura porque não sofri nenhum acidente, não bati a cabeça nem tive traumatismo craniano. Mas de vez em quando a vida dá um "presta atenção" na gente. E eu precisei levar duas bofetadas para acordar. Um nocaute para estacionar.
Acordei com amnésia querendo saber como vim parar aqui, que pedaço de mim fez essa viagem e que parte ficou lá atrás, sem coragem de engatar a primeira marcha. Naquele dia acordei com saudade daquela que não fez as malas, da menina que parou no tempo e tinha muitas coisas para me contar porque segui a estrada distraída e ela esteve a me observar, sabia dos meus erros, entendia minhas fraquezas, foi espectadora da minha jornada.
Acordei sem identidade e quis me encontrar com aquela que sempre soube o que queria, com a parte de mim que tinha um olhar mais adocicado perante a vida.
Como no filme "A Dona da História" em que a Carolina de meia idade encontra-se com a Carolina de dezoito anos e se pergunta como teria sido a vida se tivesse feito outras escolhas, investiguei meu passado pra entender o presente. Revi fotos, reli cartas, mergulhei em diários. Voltei a escrever, reencontrei amigos, assisti a videos. Pouco a pouco a memória foi voltando, a comunicação se restabelecendo, o branco dando lugar ao entendimento.
Então uma noite recebi uma visitante ilustre. Era a menina dos diários. Passamos a noite revendo histórias, compreendendo as escolhas, aceitando os caminhos. No fim, me encarou com ternura afirmando que fiz a escolha certa, que estou no lugar que sempre desejei estar_ apesar dos conflitos, dúvidas e mágoas.
"Isso faz parte da vida"_ ela disse, e acrescentou: "Apesar de tudo, essa é a melhor versão da sua história"...
"E pode ser uma benção se você compreender que não é porque o caminho está difícil que ele está errado..."
No dia seguinte a memória voltou e tratei de ser feliz...

terça-feira, 19 de agosto de 2014





domingo, 3 de agosto de 2014

Uma voz lúcida e desesperada em meio ao caos




terça-feira, 15 de julho de 2014

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Ortopedia - Das Ruas do Absurdo - clique ao lado para ouvir a música


Das ruas

Das ruas
do senso
comum
que cotidianamente
rompe a linguagem
que mata
nas ruas
que amam
que salvam!


Rejane Cavalcanti em 04/06/2014 às 04:46 minutos

Via Carol Pimentel

sábado, 26 de abril de 2014

A Mesa Vermelha

Documentário exibido por Tuca Siqueira exibe depoimentos de 23 ex-presos políticos no período da ditadura militar no Recife . Veja neste aqui A Mesa Vermelha


Documentário exibido por Tuca Siqueira exibe depoimentos de 23 ex-presos políticos no período da ditadura militar no Recife, entre 1969, com a promulgação do AI 5 e 1979, com o advento da Lei da Anistia. Acompanha este documentário o debate entre os participantes,ao redor de uma mesa vermelha,sobre temas relacionados ao período da ditadura passando pelo golpe de 64, pela guerrilha do Araguaia, pela luta dentro das prisões em prol da anistia ampla, geral e irrestrita até a conjuntura atual.
A riqueza do material produzido extrapolou o espaço de um filme e expandiu-se nesse site que ora apresentamos. 
Os depoimentos individuais dos protagonistas onde cada um conta suas experiências de militância, prisão política e torturas a que foram submetidos também poderão ser acessados.
A Mesa Vermelha é fruto do Projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça em parceria com o Movimento Tortura Nunca Mais de Pernambuco, idealizado e coordenado pelas também ex presas políticas Yara Falcon e Lilia Gondim.



quarta-feira, 23 de abril de 2014

Noite de terror no #OcupaTelerj

Rio de Janeiro - entre 2 e 3 horas da madrugada, sexta feira da Paixão de Cristo.
Desabrigados que foram expulsos da favela Oi-Telerj que ocuparam o espaço público em frente da Prefeitura do Rio de Janeiro porque não tinham para onde ir, revivem a Paixão de Cristo. Sofrem na pele o mesmo calvário. A Guarda Municipal e o Batalhão de Choque da Polícia Militar da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, numa ação covarde, sádica e sem a menor complacência, avançam sobre mulheres, crianças e homens forçando-os a saírem de onde estavam. Espalhando terror por todos os lados, avançavam até naqueles que tentavam fugir indo para pontos de ônibus ou em direção à Central do Brasil para pegarem trens. Choro de crianças, gritos de mulheres se ouviam por todos os lados. Alguns ativistas estavam por lá, dentre eles o pessoal do Coletivo Carranca que mostrava tudo ao vivo. Muitas pessoas não tinham para onde ir e ficaram espalhadas pelas ruas, vindo a se agruparem depois e pedir apoio na Catedral de São Sebastião do Rio de Janeiro. 
A Arquidiocese do Rio de Janeiro, no entanto, lhes negou abrigo e ainda cancelou a encenação da Paixão de Cristo no dia seguinte. Mas, para que encenação se ali estavam os protagonistas dessa PAIXÃO? 
Abaixo, o vídeo que mostra tudo, desde a remoção até a caminhada e a chegada das pessoas na Catedral do rio de Janeiro.


Às vezes, tento ser engraçada, mas me falta a leveza necessária para isso. Às vezes, tento ser poeta, contista, jornalista, mas me falta a destreza com as palavras. No entanto, não me falta inspiração e indignação. Esta, mesmo sem o texto adequado, nunca me faltará.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Para Maria da Graça – Paulo Mendes Campos
Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.
Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada ou vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gato se fosses eu?”
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: “A minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance só é o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energeticamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo” Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta a parábola perfeita: Alice tinha diminuido tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor. Toda a pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

domingo, 6 de abril de 2014

Velhos Companheiros



A Mesa Vermelha, filme da cineasta pernambucana Tuca Siqueira. O enredo retrata as experiências - através de depoimentos - de 23 militantes de organizações de esquerda durante a ditadura militar, desde suas atividades como militantes, até a época em que estiveram detidos, inicialmente na Casa de Detenção do Recife (hoje Casa da Cultura) e depois na Penitenciária Barreto Campelo, em Itamaracá, Pernambuco.

Abaixo, texto de Rosa Bezerra, feito logo após assistir a apresentação do filme no cinema São Luis, em Recife

VELHOS COMPANHEIROS

           Quase todos de cabelos brancos, muitos já sentindo o peso da idade e, por que não dizer, das dores sofridas nos cárceres da ditadura.  No entanto, quando se reúnem o riso vem fácil, a alegria os leva de volta àquele tempo de juventude, onde tudo era possível, até libertar uma nação de seus algozes.
            A conversa rola solta. Os olhos brilhantes (às vezes, marejados), as lembranças que lhes tira as rugas e o passar dos anos, os fazem voltar no tempo. Perguntam pelos ausentes, tiram dúvidas sobre acontecimentos passados, algumas ações de que tiveram notícias à distância, em outros estados ou em outros momentos.
            Falantes, alegres, gesticulam sem parar na tentativa de passar para o ouvinte os sentimentos da época, os sonhos sonhados, as lutas pelos ideais, as aventuras vividas, toda uma gama de sensações e toda uma vida jogada sem pudor, nas pequenas chances de vitórias. O monstro da ditadura era gigantesco e contava com armas, munições, e todo um aparato poderoso que esmagava os mais aguerridos nomes da resistência. E havia os cooptados, os delatores sob tortura, os delatores espontâneos, os “caçadores” de comunistas, os reacionários de plantão, os bajuladores de Tio Sam.
            Percebemos pelos relatos que não existe vergonha pelo sofrimento passado, mas um orgulho desmedido pelo sacrifício à liberdade, muitos deles afirmando que fariam tudo de novo, mais bem feito. Continuam na luta, continuam vigilantes. Mas o tempo é outro, o tempo é agora. E agora não existe aquele tempo, aquele idealismo, aquela solidariedade, aqueles jovens que perdiam a juventude e, muitos deles, a própria vida em prol de um ideal.
            O tempo de cadeia não os humilhou; ali lutaram com outras armas: orquestrando reivindicações, greves de fome, defendendo os companheiros, cada um cuidando do outro ou brigando por coisas bobas, como disse um deles. E cada um que era libertado vivenciava um misto de alegria e tristeza: sair da masmorra e deixar os amigos de luta. Viver livre e não estar ao lado dos que continuam lutando na prisão. Houve até um caso de voltar à prisão para pernoite por ser feriado e não ter pra onde ir.
            Houve, quando da saída de alguns, a certeza de que a liberdade estava próxima e a incerteza do que o esperava lá fora. Alguns foram libertados e continuaram, sob vigilância discreta dos órgãos de repressão; outros não encontraram mais sua vida de volta com facilidade, pois não conseguiam emprego. O monstro ainda os torturava na vida civil.  E atemorizava a todos com suas aberrações. Ou seja, havia o caso dos desaparecidos. E com eles a dor eterna de uma despedida por fazer, de um ritual por cumprir, de uma mãe que não enterra o corpo do filho. E algumas mulheres sem marido, filhos criados sem conhecer o pai, filhos que carregam a imagem dos pais torturados, dos pais que não se despediram, que saíram prometendo voltar e os deixaram com a promessa não cumprida. Filhos que não esquecem “a cara amarrada”, e que, apenas muito tempo depois, entendem o que isso queria dizer.
            A ditadura ainda persegue a muitos com seus mortos insepultos, com suas histórias ocultadas, com os gritos desesperados dos torturados que ainda ecoam na memória, com os pedidos de ajuda que não puderam ser atendidos. O monstro ainda mostra os dentes aos sobreviventes que insistem em trazer à tona, o passado tenebroso de um país sem memória. A historiografia oficial não admite ser contestada. Ou como diz um dos militantes: “os canhões ainda estão apontados”. O que pode ser facilmente comprovado pela arrogância com que os torturadores desfilam na sociedade e comemoram o golpe, apesar de termos uma presidenta que foi vítima da sanha destes mesmos usurpadores da democracia e dos direitos humanos.
            Em resumo, o encontro e o diálogo com os herois do país nos faz agradecer a quem lutou o bom combate e arriscou a vida em prol de um ideal hoje ausente na juventude, presa aos ideais de um pensamento pós-moderno, onde o individualismo mata sorridente, a solidariedade e a humanidade.
            Atualmente, o imaginário coletivo preza a necessidade individual, menosprezando, inclusive, a noção de sobrevivência da espécie humana, diferentemente das outras espécies ditas “inferiores”. A vida nas grandes cidades brasileiras (e do mundo, também) mostra-se demasiadamente agressiva egoísta, valorizando o parecer ter mais que qualquer outro objetivo. Matamos-nos por motivos os mais banais, ao sinal da menor contrariedade. A atual juventude, herdeira da modernidade, afia os dentes e rosna à menor dificuldade. Vivemos um tempo de mortes banalizadas, de tragédias reveladoras de uma sociedade doente e fratricida.

             OBRIGADA, COMPANHEIROS!

                                                                                               
  ROSA BEZERRA, 28.05.2013.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Mineirinho

[Clarice Lispector*]
É, suponho que é em mim, como um dos representantes do nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irre­dutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: “O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no céu”. Respondi-lhe que “mais do que muita gente que não matou”.Por que? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.
Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.
Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais.
Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos.
Até que treze tiros nos acordam, e com horror digo tarde demais — vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu – que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva.
Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo-terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente — não nas conseqüências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta.
Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estre­meça.
A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.
Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo em Mineirinho — essa coisa que move montanhas e é a mesma que o fez gostar “feito doido” de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador — em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, que não me perdi, experimentei a perdição.
A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime. Continuo, porém, espe­rando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem.
E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta tran­cada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma.
Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila e que outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer.
Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.
Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo — uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do São Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muito séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e só como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.
Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização.
Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento.
Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso – nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranqüila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.
O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.


Copiado a partir da Revista Pittacos