quarta-feira, 23 de abril de 2014

Noite de terror no #OcupaTelerj

Rio de Janeiro - entre 2 e 3 horas da madrugada, sexta feira da Paixão de Cristo.
Desabrigados que foram expulsos da favela Oi-Telerj que ocuparam o espaço público em frente da Prefeitura do Rio de Janeiro porque não tinham para onde ir, revivem a Paixão de Cristo. Sofrem na pele o mesmo calvário. A Guarda Municipal e o Batalhão de Choque da Polícia Militar da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, numa ação covarde, sádica e sem a menor complacência, avançam sobre mulheres, crianças e homens forçando-os a saírem de onde estavam. Espalhando terror por todos os lados, avançavam até naqueles que tentavam fugir indo para pontos de ônibus ou em direção à Central do Brasil para pegarem trens. Choro de crianças, gritos de mulheres se ouviam por todos os lados. Alguns ativistas estavam por lá, dentre eles o pessoal do Coletivo Carranca que mostrava tudo ao vivo. Muitas pessoas não tinham para onde ir e ficaram espalhadas pelas ruas, vindo a se agruparem depois e pedir apoio na Catedral de São Sebastião do Rio de Janeiro. 
A Arquidiocese do Rio de Janeiro, no entanto, lhes negou abrigo e ainda cancelou a encenação da Paixão de Cristo no dia seguinte. Mas, para que encenação se ali estavam os protagonistas dessa PAIXÃO? 
Abaixo, o vídeo que mostra tudo, desde a remoção até a caminhada e a chegada das pessoas na Catedral do rio de Janeiro.


Às vezes, tento ser engraçada, mas me falta a leveza necessária para isso. Às vezes, tento ser poeta, contista, jornalista, mas me falta a destreza com as palavras. No entanto, não me falta inspiração e indignação. Esta, mesmo sem o texto adequado, nunca me faltará.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Para Maria da Graça – Paulo Mendes Campos
Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.
Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada ou vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gato se fosses eu?”
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: “A minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance só é o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energeticamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo” Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta a parábola perfeita: Alice tinha diminuido tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor. Toda a pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

domingo, 6 de abril de 2014

Velhos Companheiros



A Mesa Vermelha, filme da cineasta pernambucana Tuca Siqueira. O enredo retrata as experiências - através de depoimentos - de 23 militantes de organizações de esquerda durante a ditadura militar, desde suas atividades como militantes, até a época em que estiveram detidos, inicialmente na Casa de Detenção do Recife (hoje Casa da Cultura) e depois na Penitenciária Barreto Campelo, em Itamaracá, Pernambuco.

Abaixo, texto de Rosa Bezerra, feito logo após assistir a apresentação do filme no cinema São Luis, em Recife

VELHOS COMPANHEIROS

           Quase todos de cabelos brancos, muitos já sentindo o peso da idade e, por que não dizer, das dores sofridas nos cárceres da ditadura.  No entanto, quando se reúnem o riso vem fácil, a alegria os leva de volta àquele tempo de juventude, onde tudo era possível, até libertar uma nação de seus algozes.
            A conversa rola solta. Os olhos brilhantes (às vezes, marejados), as lembranças que lhes tira as rugas e o passar dos anos, os fazem voltar no tempo. Perguntam pelos ausentes, tiram dúvidas sobre acontecimentos passados, algumas ações de que tiveram notícias à distância, em outros estados ou em outros momentos.
            Falantes, alegres, gesticulam sem parar na tentativa de passar para o ouvinte os sentimentos da época, os sonhos sonhados, as lutas pelos ideais, as aventuras vividas, toda uma gama de sensações e toda uma vida jogada sem pudor, nas pequenas chances de vitórias. O monstro da ditadura era gigantesco e contava com armas, munições, e todo um aparato poderoso que esmagava os mais aguerridos nomes da resistência. E havia os cooptados, os delatores sob tortura, os delatores espontâneos, os “caçadores” de comunistas, os reacionários de plantão, os bajuladores de Tio Sam.
            Percebemos pelos relatos que não existe vergonha pelo sofrimento passado, mas um orgulho desmedido pelo sacrifício à liberdade, muitos deles afirmando que fariam tudo de novo, mais bem feito. Continuam na luta, continuam vigilantes. Mas o tempo é outro, o tempo é agora. E agora não existe aquele tempo, aquele idealismo, aquela solidariedade, aqueles jovens que perdiam a juventude e, muitos deles, a própria vida em prol de um ideal.
            O tempo de cadeia não os humilhou; ali lutaram com outras armas: orquestrando reivindicações, greves de fome, defendendo os companheiros, cada um cuidando do outro ou brigando por coisas bobas, como disse um deles. E cada um que era libertado vivenciava um misto de alegria e tristeza: sair da masmorra e deixar os amigos de luta. Viver livre e não estar ao lado dos que continuam lutando na prisão. Houve até um caso de voltar à prisão para pernoite por ser feriado e não ter pra onde ir.
            Houve, quando da saída de alguns, a certeza de que a liberdade estava próxima e a incerteza do que o esperava lá fora. Alguns foram libertados e continuaram, sob vigilância discreta dos órgãos de repressão; outros não encontraram mais sua vida de volta com facilidade, pois não conseguiam emprego. O monstro ainda os torturava na vida civil.  E atemorizava a todos com suas aberrações. Ou seja, havia o caso dos desaparecidos. E com eles a dor eterna de uma despedida por fazer, de um ritual por cumprir, de uma mãe que não enterra o corpo do filho. E algumas mulheres sem marido, filhos criados sem conhecer o pai, filhos que carregam a imagem dos pais torturados, dos pais que não se despediram, que saíram prometendo voltar e os deixaram com a promessa não cumprida. Filhos que não esquecem “a cara amarrada”, e que, apenas muito tempo depois, entendem o que isso queria dizer.
            A ditadura ainda persegue a muitos com seus mortos insepultos, com suas histórias ocultadas, com os gritos desesperados dos torturados que ainda ecoam na memória, com os pedidos de ajuda que não puderam ser atendidos. O monstro ainda mostra os dentes aos sobreviventes que insistem em trazer à tona, o passado tenebroso de um país sem memória. A historiografia oficial não admite ser contestada. Ou como diz um dos militantes: “os canhões ainda estão apontados”. O que pode ser facilmente comprovado pela arrogância com que os torturadores desfilam na sociedade e comemoram o golpe, apesar de termos uma presidenta que foi vítima da sanha destes mesmos usurpadores da democracia e dos direitos humanos.
            Em resumo, o encontro e o diálogo com os herois do país nos faz agradecer a quem lutou o bom combate e arriscou a vida em prol de um ideal hoje ausente na juventude, presa aos ideais de um pensamento pós-moderno, onde o individualismo mata sorridente, a solidariedade e a humanidade.
            Atualmente, o imaginário coletivo preza a necessidade individual, menosprezando, inclusive, a noção de sobrevivência da espécie humana, diferentemente das outras espécies ditas “inferiores”. A vida nas grandes cidades brasileiras (e do mundo, também) mostra-se demasiadamente agressiva egoísta, valorizando o parecer ter mais que qualquer outro objetivo. Matamos-nos por motivos os mais banais, ao sinal da menor contrariedade. A atual juventude, herdeira da modernidade, afia os dentes e rosna à menor dificuldade. Vivemos um tempo de mortes banalizadas, de tragédias reveladoras de uma sociedade doente e fratricida.

             OBRIGADA, COMPANHEIROS!

                                                                                               
  ROSA BEZERRA, 28.05.2013.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Mineirinho

[Clarice Lispector*]
É, suponho que é em mim, como um dos representantes do nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irre­dutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: “O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no céu”. Respondi-lhe que “mais do que muita gente que não matou”.Por que? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.
Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.
Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais.
Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos.
Até que treze tiros nos acordam, e com horror digo tarde demais — vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu – que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva.
Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo-terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente — não nas conseqüências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta.
Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estre­meça.
A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.
Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo em Mineirinho — essa coisa que move montanhas e é a mesma que o fez gostar “feito doido” de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador — em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, que não me perdi, experimentei a perdição.
A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime. Continuo, porém, espe­rando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem.
E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta tran­cada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma.
Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila e que outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer.
Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.
Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo — uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do São Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muito séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e só como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.
Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização.
Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento.
Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso – nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranqüila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.
O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.


Copiado a partir da Revista Pittacos





sábado, 2 de novembro de 2013

2001 Dawn of Man (best cut)

"Ápice da sequência da 'aurora do homem', uma das mais célebres e eloquentes da história do cinema". Frase de José Geraldo Couto, no blog Blog do IMS