segunda-feira, 9 de setembro de 2013

"A revolução acabou. Começa a idade da revolta"

por Marco Belpolit

Publicado em português na página Cultura e Barbárie - Sopro,  traduzido da publicação original no La Estampa, publicação esta datada de 16 de Fevereiro de 2010.

Adeus, revolução? Sim, o seu lugar foi tomado pela revolta. De Clichy-sous-Bois, na periferia parisiense, em 2005, até Atenas em 2008, até o ataque dos estudantes londrinos em 2010, ou até a passeata dos estudantes ganhar as ruas de Roma anteontem, a revolta parece ter tomado o lugar das forças revolucionárias. A revolta não tem projeto, não se projeta no tempo futuro. Como sustentou um dos seus teóricos, o germanista e mitólogo Furio Jesi, morto justo há trinta anos, emSpartakus. Simbologia della rivolta, texto de publicação póstuma, «antes da revolta e depois dela se estendem a terra de ninguém e a duração da vida de cada um, nas quais se perfazem ininterruptas batalhas individuais». Evocando Rimbaud e a Comuna de Paris, Jesi afirmava: «Só na revolta a cidade é sentida como o haut-lieue ao mesmo tempo como a própria cidade»; na hora da revolta não se está mais sozinho, mas se está no fluxo cambiante do Nós, entidade provisória e lábil, extática e violenta.
Depois do fim das ideologias, depois da queda do Muro de Berlim e do triunfo do pensamento único, no Ocidente como no Oriente, em Nova York como em Xangai, a revolta suspende o tempo histórico e cria o instantâneo; é o triunfo do presente contraposto ao futuro. Não se espera mais o dia da conclusão do longo processo revolucionário. A revolta instaura um tempo extático, escreve Pierandrea Amato, um dos teóricos das novas revoltas metropolitanas, o aqui e agora. Walter Benjamin relata como, no decurso da Comuna de Paris, os revoltosos dispararam contra os relógios, símbolo do tempo escandido pelo progresso, pela disciplina do trabalho. A revolta não prevê, mas vive no repentino; não pressupõe nem mesmo uma classe social que tomará o poder, mas só indivíduos atomizados, que no curso das insurreições espontâneas, não preparadas e contagiosas, se tornam uma força provisória. Se as revoluções cultivavam o sonho do ataque ao Palácio de Inverno, conquista do centro simbólico do poder, a revolta advém de modo molecular com o intento de condicionar materialmente o andamento normal das coisas.
Depois da revolta nada é mais como antes. Para os seus teóricos – Paolo Virno, um dos filósofos italianos hoje mais citados no mundo, mas também os franceses Alain Badiou e Jacques Rancière – a revolta é o análogo da catástrofe, do colapso a que nos habituou o novo capitalismo financeiro, a única resposta possível a uma sociedade que não parece mais ter nenhum fundamento certo, nenhuma teoria com a qual justificar o próprio domínio, a não ser a coerção, o uso da força ou a sedução do consumo. Vivemos na época do desastre, como havia intuído na metade dos anos sessenta Susan Sontag.
A revolta é filha da crise da democracia representativa que no Ocidente, por causas complexas, parece ter perdido a própria função histórica. Os revoltosos, movidos por razões freqüentemente diferentes, mostram, nas periferias urbanas francesas como no centro de Roma, nas ruas de Atenas como nas localidades ao redor de Nápoles, o emergir de uma política que se põe para além do sistema que hoje a representa: são a expressão de uma caótica e espontânea vontade de viver, oposta e simétrica àquela que na Itália domina a cena política maior. Pierandrea Amato, em La rivolta, publicado recentemente, escreve que a revolta é um vento que traz consigo a própria auto-desintegração.
Os garotos que correm com os capacetes e escudos pelas ruas, que sobem nos monumentos, que aparecem e desaparecem nas banlieues, tocando fogo nos automóveis e nas latas de lixo, mostram a existência de um campo de forças que escapa às categorias políticas tradicionais, ao marxismo e ao pós-marxismo tanto quanto às teorias neoliberais. A revolta acontece, do mesmo modo que um evento artístico, uma manifestação momentânea, uma performance. Não se pode representá-la nem de forma política nem espetacular; é um acontecimento extático, mais próximo das formas religiosas, da festa, do que das estruturas da representação política, tais como um partido ou um parlamento: vive, não se representa. A sociedade do espetáculo que dominou nos últimos vinte anos, realizando a profecia de Guy Debord, agora tem diante de si uma série de acontecimentos não capturáveis nas formas do espetáculo midiático.
Aquilo que, em definitivo, a revolta desestrutura é a idéia mesma da identidade política. O Nós aparece e desaparece, e suspende o tempo histórico em favor daquele que os gregos chamavam Kairos: o justo instante, o golpe de vista, aquele em que o atleta perfaz o movimento justo, supera o adversário, cruza a linha de chegada. Devemos preparar-nos para viver num tempo diverso daquele que marcou as vidas dos nossos pais e avós, um tempo que não tem uma única direção, ou uma destinação predeterminada, mas que acontece e ao mesmo tempo colapsa, que se mostra e se subtrai. O Homo seditiosus é o campeão de uma humanidade que sai às ruas hoje, mas também amanhã e depois de amanhã, para realizar «uma arte sem obra».


sábado, 31 de agosto de 2013

Coque - Zeis (Zona Especial de Interesse Social) Será?


"No princípio era a lama. O Coque alagado do Rio Capibaribe foi sendo aterrado, palmo a palmo por seus moradores. Até que a lama se pintou de memórias e de uma história que já ultrapassa um século. Por estar molhada, aquela terra virou terreno de marinha, terreno da União. Por ser pobre, tornou-se Zona Especial de Interesse Social, Zeis."




"É histórico, o poder público só entra no Coque para operar desapropriações. Apesar da comunidade ter conquistado o direito a ser Zeis (Zona Especial de Interesse Social), continua com situação precária de saneamento, saúde e educação. O fato é, o bairro fica localizado em zona estratégica de Recife. Ao invés do governo realizar a urbanização da comunidade, vem ao longo dos anos expulsando, pouco a pouco, seus moradores realizando obras que não beneficiam a comunidade, com o discurso de que se trata de trazer desenvolvimento para a cidade."







"Para muitos em Recife, a Zeis Coque é apenas uma notícia negativa no jornal. Para as grandes empreiteiras, um lugar estratégico para possíveis construções. Para os 40 mil moradores do bairro, o Coque é sua casa, o lugar onde constroem sua história, sua memória.
Por estar localizado em área central do Recife, o lugar é alvo da especulação imobiliária. Por ser local de “ocupação irregular” é tido pelo poder público como entrave nas obras de “desenvolvimento” da cidade. Apesar de ser uma ZEIS (Zona Especial de Interesse Social), áreas demarcadas no território de uma cidade para assentamentos habitacionais de população de baixa renda.
Desde 1975 várias famílias já foram desapropriadas. O Coque perdeu 51% de seu território. Agora, em nome de obras de "mobilidade urbana" para a Copa de 2014, 58 famílias estão sendo desalojadas para a ampliação do sistema viário de acesso ao Terminal Integrado Joana Bezerra. Algumas famílias receberam carta de despejo, mas se recusam a sair de suas moradias, único bem que possuem.
Primeiro vídeo de uma série que tratará sobre o direito à moradia."




domingo, 25 de agosto de 2013

Uma visão sobre o Mais Médicos - por Vera Stringhini

      
Sou da geração que participou da VIII Conferência Nacional de Saúde, em 1986: marco teórico e político que permitiu a criação do SUS.
Sabíamos que o SUS só seria viável se agregasse ao modelo médico tradicional os conceitos de saúde comunitária, saúde de família, equipe multiprofissional, prevenção, saúde ocupacional, fatores de risco, poluição ambiental, educação para a saúde, nutrição, e muitas outras disciplinas ausentes do currículo das escolas médicas. Há aproximadamente 30 anos esta visão mais abrangente vem sendo discutida e seus instrumentos construídos e aprimorados.
O programa Mais Médicos nos faz recuar no tempo. Seria perfeito e não seria necessário importar médicos se a Bolsa-médico fosse a Bolsa-equipe-de-saúde: R$10.000,00 disponibilizados igualitariamente para a equipe que planificaria suas ações conforme as necessidades de cada região.
Penso que foi um erro desrespeitar o marco simbólico que sustenta a construção de nossa ciência médica, edificada com seriedade e segurança. Foi arrogância não querer dialogar com representantes dos Conselhos, Sindicatos e Escolas médicas. Criou uma fratura em nosso sistema simbólico, quer dizer, temos agora vários tipos de médicos. A palavra Médico, tão respeitada, perdeu significado pela multiplicação dos significantes. E a cisão dentro da equipe , que estava ultrapassada, reascendeu-se entre os médicos brasileiros e os estrangeiros.
Os médicos cubanos não vão nos fazer mal, são bons agentes de saúde, seria um doloroso erro hostilizá-los. É certo que nossa medicina  tem uma evolução, desde a origem,  diferente da medicina cubana: nossa medicina é liberal-iluminista, filha das ciências exatas. A medicina cubana é socialista, filha das ciências humanas. Ambas tem vantagens e desvantagens, temos de aprender com eles, eles tem o que aprender conosco.
Em um momento particularmente otimista para a nossa medicina comunitária, onde ações tidas como exclusivas do médico podem ser exercidas por outros profissionais da equipe, o que amplia a força da equipe de saúde e aumenta a resolutividade das unidades básicas, temos de enfrentar um programa que recupera o modelo da supremacia médica e recomeçamos a debater competências.
Gostaria de pensar que na qualidade de trabalhadores e sonhadores  do SUS, com seu ideário de Universalidade, Integralidade, Equidade, Descentralização e Participação, tão caro ao nosso imaginário, vamos receber bem nossos colegas ultrapassando as questões simbólicas. Considerando-as, mas sem se deixar cegar por elas.
É princípio da medicina  mas serve para todo e qualquer trabalhador da saúde: Primo non nocere, em primeiro lugar não causar dano. Isso significa contribuir para fazer da equipe um produto gregário, democrático onde convivem desejos e saberes distintos combinados para um objetivo comum. Não é fácil, mas vale o esforço.

                                                         Vera Stringhini

                                                         Médica Psiquiatra
                                                         Porto Alegre-RGS - 
                                                         Agosto de 2013
O texto não revela, a opinião da dona do blog, mas é importante para o debate sobre o Programa Mais Médicos.
                                                         

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

"Vídeo sobre a história da Europa, de 1.000 DC à 2003, em 3 minutos"

"Das conquistas gregas e romanas até a dissolução da Iugoslávia: um vídeo criado por um software da Centennia Historical Atlas conta a história da Europa em menos de 4 minutos. A música tema foi composta por Hans Zimmer para o filme ‘Inception’. Para se ter ideia da quantidade de fatos, a Segunda Guerra Mundial só começa a aparecer a partir dos 3 minutos. Veja o vídeo abaixo" introdução do Radar Global

domingo, 11 de agosto de 2013

Ao meu pai




Guto Holanda - Pai e filha - óleo sobre tela.




Pai, como eu
 lembro tanto.
Nos teus braços
adormecia
embalada por
teus contos
de assombro
e de encantos.

Pai, como
eu me lembro
dos dias
de teus desencantos,
a segurar tuas mãos
 com minhas mãos
 de menina
assombrada
num instante,
mas depois
reconfortada
pela dor
apaziguada

E como lembro, pai
querido, que
eras todo sentido
no teu afeto
e amor.

Ah! pai como
eu queria
poder te dizer de novo
tudo aquilo que sentia,
quando então me protegias
no calor dos teus abraços.
E te sentir
novamente
e ficar assim contente
como quando era criança
e brincava na ilusão
de que eras para sempre
de que não te perderia.

Rejane Cavalcanti
Recife, 11 de Agosto de 213.





sábado, 3 de agosto de 2013

"Quem não gosta de samba, bom sujeito não é.É ruim da cabeça, ou doente do pé"

"Quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça, ou doente do pé". Viva a praça. A praça é minha, a praça é sua, a praça é nossa. Viva a república.Viva a democracia. E um viva aos gregos que a inventaram.O bonde da história está passando. Ou embarcamos nele ou ficaremos assistindo a banda passar.